Flavio Aguiar, de Berlim
Com o golpe, o
Brasil perdeu todo o prestígio internacional que acumulara nos últimos tempos.
E a Globo, como co-patrocinadora do golpe, foi junto.
Chamou
a atenção a cara de desolação com que as comentaristas presentes na Globo News
receberam a fala de Jorge Pontual, desde Nova Iorque, sobre a péssima recepção
inicial do governo Temer na mídia internacional.
Em
outra oportunidade, chamou a atenção também a reação ressentida de
comentaristas da Globo a editorial do New York Times criticando o processo de
impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Uma das comentaristas chamou de
doideira ou palavra semelhante. Sinal de o golpe foi duro. O New York Times é
considerado um jornal modelar por grande parte do mundo leitor e jornalistas do
mundo inteiro. Ou seja, a Globo acusou o golpe - não o que ajudou a patrocinar
contra Dilma, mas o que recebeu no fígado.
Acontece
que a Globo cometeu um harakiri moral. Como a paciente continua viva, o
harakiri deixa de ser um suicídio e se torna muito mais uma auto-mutilação. Com
o golpe, o Brasil perdeu todo o prestígio internacional que acumulara nos
últimos tempos. E a Globo, como co-patrocinadora e ainda com a insistência em
dizer que o golpe não é golpe, foi junto. Até o momento a narrativa de que o
golpe não é golpe, bem como o status dos golpistas, são vistos com reações que
variam do ceticismo à denúncia. A automutilação provoca uma sensível fuga da
realidade e um lastro de irritação constante a cada vez que a realidade volta à
tona. Esta negação programada e compulsiva precisa do reconhecimento dos outros
para se afirmar dentro do próprio paciente. A não concordância dos demais deixa
o paciente desarmado, e a única reação possível, já que a volta atrás é
percebida histericamente como uma desmoralização - e é - é a repetição da
negativa em decibéis mais altos. É preciso muita grandeza em matéria de
jornalismo para fazer o que o Le Monde fez: depois de uma cobertura inicial
reproduzindo a narrativa golpista de que o golpe não era golpe, voltou atrás e
pediu desculpas aos leitores por não dar as informações completas, isto é, de
que o assunto era, no mínimo, controverso. Mas quem nasceu para Rede Gobo
jamais chegará a Le Monde ou New York Times. Seu limite é a antiga Tribuna da
Imprensa lacerdista.
Mas
há ainda mais curiosidades a explorar nesta seara das coberturas do golpe.
Folha de S. Paulo e Estadão deram exemplo curioso, porque desavisado, de como
os feitiços, sem bem olhados, podem se voltar contra os feiticeiros. Quiseram
ambos desmoralizar a presidenta Dilma Rousseff com a construção de metáforas
fotográficas de seu “fim”. A primeira publicou, na primeira página, uma série de
fotos da presidenta sendo incomodada por uma mosca. O segundo publicou, também
na primeira página, uma foto do rosto da presidenta envolto em chamas, que
provinham da pira olímpica recém acesa.
A
construção de uma metáfora sobre um alvo revela tanto o que o construtor pensa
sobre aquele, quanto o que este deixa, no mais das vezes inadvertidamente,
escapar sobre si mesmo ou sobre seu ponto de vista. Imagino o halo de
satisfação eivada de sarcasmo, desdém e arrogância que devem ter feito parte da
reação de todos os envolvidos: do fotógrafo pusilânime, ao leitor sádico que se
compraz com tal “ofensa”, passando, naturalmente, pelo editor da primeira
página, o redator-chefe, os editorialistas, os donos do jornal, etc. “Agora
assim acabamos com esta…” - deixo a palavra seguinte para ser imaginada pelas
leitoras e leitores.
Porém
as metáforas podem ter um insuspeito efeito bumerangue.
No
primeiro caso, o da mosca, a série de fotos se tornou uma poderosa extensão da
imagem - também já desenhada - que mostra a presidenta sendo atacada por um
bando desordenado de ratazanas. Aliás, esta é uma imagem que foi explorada
também em relação à “invasão” do Palácio do Planalto pelos usurpadores: um
bando de ratos. A mosca reforça uma atribuição moral para o ataque que se faz à
presidência: os atacantes têm a dimensão de insetos. Além de roedores, podem
ser nocivos à saúde… Acho que esta dimensão subliminar da metáfora passou
desapercebida aos seus construtores, pois fica no ponto cego de sua identidade.
O
segundo caso, o da fogueira, é mais complexo, pois denota uma ignorância mais
profunda sobre o universo metafórico e suas possíveis consequências. Aquela da
mosca tem a dimensão de uma maldade travessa e infantil. A da fogueira carrega
consigo uma intenção simbolicamente assassina. Mas sem querer os perpetradores
deste “assassinato” promoveram a imagem da presidenta atingida à condição de
Joana d’Arc, e vestiram a toga - ou o hábito dos inquisidores. Desvelaram-se e
desvelaram algo sobre o julgamento efetuado: uma falcatrua do ponto de vista
jurídico para abrir as portas para um crime político, condenando a inocente à
fogueira e consagrando a fúria roedora dos diminutos (moralmente) algozes como
vencedora. Uma das fotos seguintes deste ágape da malignidade, divulgada e comentada
internacionalmente, simplesmente coroou esta sequência de burrices metafóricas:
aquela da posse de Miguel Temer cercado pelos varões assinalados por seus
ternos pretos (luto e símbolo da opacidade, no caso, machista, imperceptível
aos que assim procediam). Ou seja, a foto da fogueira consagrou a presidenta
com o manto histórico e simbólico do martírio, enquanto consagrava seus
construtores como arautos da ignominia político-jurídica e da burrice
jornalística, simultaneamente.
Com
todas estas manifestações que têm tanto de planejamento quanto de insanidade,
esta mídia conseguiu registrar a devolução da presidenta a seu povo. É verdade
que a presidenta se afastara, no mínimo em termos de imagem, do povo que a
elegera, com a adoção, no segundo mandato, de medidas dignas da austeridade que
atualmente devasta a Europa sob a alegação de “cura-la”. E o que se viu desde o
começo do iníquo processo de impeachment foi o seu retorno aos braços de onde
não deveria ter saído.
As
metáforas são facas de muito gumes, para tomar de empréstimo outra, de autoria
de um amigo meu. Usa-las, como viver, é muito perigoso, pois assim como as
usamos, elas podem nos deixar nus em plena rua, ou na banca de jornais, neste
caso. Decididamente, não é brinquedo para principiantes. Muito menos para
ignorantes.
Créditos
da foto: Mídia Ninja
Fonte:
cartamaior


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