“Nesse tempo (vivido no mosteiro) completei o curso de Filosofia, o que foi muito importante, tendo aprendido latim, pois podendo ler os textos no original me desvencilhei de todo o entulho religioso que até ali tinha atravancado minha cabeça. Ainda hoje leio os textos religiosos tradicionais —Bíblia, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho — em latim”.
Pouco depois de largar os capuchinhos, foi para Fortaleza estudar Medicina, mas, logo, trocou o projeto de virar doutor pela música. Agitou espetáculos, realizou programas de TV, juntou-se a uma turma de jovens compositores. Entre eles, ilustres cearenses como Ednardo, Fagner, Rodger e Teti.
Anos depois, uma parte da turma abraçou a ideia de um disco em conjunto. O grupo se autointitulou “Pessoal do Ceará”. Belchior não embarcou no projeto. “Não faz muito sentido pra mim, esse determinismo geográfico” justificou-se. “Não preciso enfatizar minhas raízes, enfatizar meu cearensismo. Eu faço coisas cearenses em qualquer circunstância, porque tenho o Ceará dentro de mim”
Belchior se considerava marcado a ferro e fogo “pela exposição ao universo sonoro do nordeste, que é uma coisa fortíssima”. As influências regionais, porém, se confundiam com uma miscelânea de outras: “A nordestinidade é uma coisa que só pode ser vista do sul. A típica música nordestina também. Eu não tinha nenhuma preocupação seletiva. Eu ouvia tudo, como todo o povo de Sobral ouvia”.
Sobre sua formação musical na infância, ele contou ao Pasquim: “Meu avô, um coronel do sertão, tocava sax e flauta. Minha mãe cantava no coro de igreja. Foi ouvindo eles, as músicas de violeiros, o serviço de alto-falante, que comecei a gostar de música. O alto-falante era uma maravilha, sonorizava toda a amplidão do sertão”
Após passar pelo Rio, onde venceu o Festival Universitário da Canção, em 71, foi para São Paulo. Lá tocou em “quase todos os lugares onde é possível cantar: escolas, praças, fábricas, hospitais, prisões, circos, caminhões. Até em teatros”. Era uma espécie de vagabundo iluminado de Kerouac e, ao mesmo tempo, um operário incansável da canção.
Os tropicalistas eram vistos por ele como precursores, quase como irmãos mais velhos que deviam ser superados. A pretensão de Belchior não era pequena: “Nós (os músicos cearenses) fomos influenciados por eles (os tropicalistas), pelas propostas deles. E por isso mesmo não se pode ficar parado. É preciso continuar, ir adiante no que os baianos fizeram”
Em certo ponto, parece que a inegável vocação artística o levou a uma tendência à megalomania. Em 1988, ele chegou a declarar ao repórter Thales de Menezes que, sentindo sua missão na música quase concluída, estava investindo em outro projeto artístico. Tratava-se, tão somente, de uma colossal coleção de 3 mil desenhos ilustrando “A Divina Comédia”, de Dante, a maior das suas muitas obsessões literárias.
O Último Capítulo
Por mais que os depoimentos sobre os últimos anos do compositor venham aparecendo aqui e ali, não é possível entender — e talvez nunca será — o que se passou na sua cabeça. Belchior teria se lançado ao famoso “dropout” (se jogar, largar tudo) dos hippies e demais libertários dos 60 e 70?
O trovador solitário deixou para trás a família, imóveis, bens e projetos não terminados (onde teriam ido parar os desenhos da Divina Comédia?). Ainda assim, as contas e dívidas que se acumularam o perseguiriam. Inclusive a pensão dos filhos que teve dentro e fora do casamento. Não é fácil ser esquecido.
Sua sombra na vida nova foi o outro Belchior, o astro. Aquele que nunca o deixaria fugir em paz, viver anônimo. Pelos relatos que vão surgindo, sua vida itinerante logo virou uma bola de neve, uma teia de aranha. O mundo cobrou a conta. A imprensa o encontrou. O dinheiro acabou.
Chegado ao hedonismo, Belchior nunca foi investidor ou poupador. Sobre acumular dinheiro, ele havia dito ao Pasquim, em 82:
“As pessoas que falam em guardar dinheiro não sabem ou se esquecem de que existem os charutos perfumados, as mulheres bonitas, os bons vinhos, de que é importante a gente ver o Oriente, a Europa, e de que a acumulação do dinheiro, além de ser chato, não tem mais significado numa sociedade contemporânea de serviços e de comunicação eletrônica veloz”.
Belchior continuaria sua marcha pelo sul, fugindo de hotéis para não pagar a conta, morando na casa de fãs que se tornariam amigos e protetores. Procurado pela polícia uruguaia, tentava permanecer anônimo, andava na rua sorrateiro e desconfiado.
O compositor não esteve só em sua última jornada, mas ao lado de Edna, uma jornalista que conheceu em 2005. Alguns amigos antigos do cantor acreditam que ela o dominava, acusam-na até de ter feito nele uma espécie de “lavagem cerebral”. Outros, que conviveram com o casal nos últimos anos, o achavam dependente dela. Seria difícil e até injusto, porém, estabelecer qualquer tipo de parecer ou julgamento sobre a relação.
Em Santa Cruz do Sul, destino final da viagem, onde viveu de favor na casa de amigos entre 2013 e 2017, o cantor teria passado a maior parte do tempo recluso. De acordo com aqueles com quem conviveu, atravessava os dias fazendo aquilo que vinha fazendo há muitos anos: escrevendo, lendo e pintando. Alheio ao redemoinho da vida, não se preocupava com mais nada: vivia tranquilo e bem humorado, apesar da falta de garantias.
Belchior conseguiu o que desejava quando decidiu largar tudo e quase todos, ou caiu numa armadilha? É melhor ficar com a dúvida do que atribuir à história ares de tragédia e ao seu autor a marca da loucura. Belchior foi apenas um inesquecível rapaz latino-americano do seu tempo, que terminou (assim como começou) sem dinheiro no banco e, aparentemente, com o mesmo coração selvagem.
Para finalizar, mais um trecho da entrevista ao Pasquim:
Ricky — Você continua apenas um rapaz latino-americano?
Belchior — Claro, sou um brasileiro comum.
Ricky — Só que agora com dinheiro no banco.
Belchior — Não é bem isso. Eu não confiaria nos bancos a esse ponto, né. Ainda tenho uma formação brechtiana.
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